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segunda-feira, 16 de setembro de 2024

(des)consolos VI

"Há demasiada dor na minha dor" in As Luzes de Leonor de Maria Teresa Horta

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

NÃO ESQUECER #CXV

“Só que os objetos são como os seres humanos, procuram o lugar da perdição quando têm de se perder.”


In Misericórdia, de Lídia Jorge

quarta-feira, 21 de julho de 2021

(des)consolos II

O grau de erro e de ruína contido no próprio bem cresceria monstruosamente ao longo dos séculos…


in Memórias de Adriano de Marguerite Yourcenar

domingo, 18 de julho de 2021

NÃO ESQUECER #CXIII

“(…) a exibição vulgar do luxo dos ricos.”

in As Memórias de Adriano de Marguerite Yourcenar

domingo, 6 de novembro de 2011

consolos LXX


AS IMPENSÁVEIS PORTAS DA ILUSÃO
O que leva o meu barco
para esta praia
onde um poder esquivo
se contenta
com a ambígua oferta de palavras?


Estamos aqui
no exíguo barco do desejo
exibidos
na frágil singularidade do verbo


Insatisfeitos sempre
aguardamos
que se abram
as impensáveis portas da ilusão


Ana Hatherly in O Pavão Negro

sexta-feira, 1 de julho de 2011

NÃO ESQUECER LXXXV


Mais importante que a Grandeza é a Inteireza!

(versão livre resultante de leitura do Tesouro Escondido, Tolentino de Mendonça)

quarta-feira, 16 de março de 2011

regalos LX

...Tem uns cabelos despenteados e uns dedos mais compridos do que aulas de Matemática...


terça-feira, 12 de janeiro de 2010

regalos XXXIX


O RIO DA POSSE

...

cada um de nós é dois, e quando duas pessoas se encontram, se aproximam, se ligam, é raro que as quatro possam estar de acordo. O homem que sonha em cada homem que age, se tantas vezes se malquista com o homem que age, como não se malquistará com o homem que age e o homem que sonha no Outro?

...

O amor quer a posse, mas não sabe o que é a posse. Se eu não sou meu, como serei teu, ou tu minha? Se não possuo o meu próprio ser, como possuirei um ser alheio? Se sou já diferente daquele de quem sou idêntico, como serei idêntico daquele de quem sou diferente?

O amor é um misticismo que quer praticar-se, uma impossibilidade que só é sonhada como devendo ser realizada.

Livro do Desassossego, Fernando Pessoa

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

afagos XL

Ele diz
:


- Sentirei a tua falta o resto da minha vida.

Ela responde:

- Estás com vontade de te aproximares de mim.
- É verdade.
- Por uns instantes, deita-te aqui ao meu lado. Depois parte.
Ele repete:
- É verdade. - E repara como ela ficou frágil e ténue.


Acorda. Pára de bater o sonho...


Os Cantores de Leitura, Maria Gabriela Llansol

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

consolos XL

"But my body was like a harp and her words and gestures were like fingers running upon the wires."
Araby in Dubliners, James Joyce

domingo, 14 de junho de 2009

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

consolos XXXIII

Manhãs de Outono...

Noites de regresso ao deleite da poesia...

o fundo do cabelo quando o agarras todo para quebrá-la,
tu que perdeste o fôlego,
e sim respiras agora de sôfrego que foste nela,
perdes a fala quotidiana,
ganhas em tudo mas não sabes quanto ganhas
in A FACA NÃO CORTA O FOGO*, Herberto Helder
* ao que tudo indica esgotou e não será reeditado...na Livraria Sol Mar esta semana ainda havia...

quarta-feira, 18 de junho de 2008

regalos XXVII

A Rapariga com Muitos Olhos

Um dia no jardim
fiquei muito espantado:
encontrei uma miúda
com olhos por todo o lado.
Era de facto encantadora
(e também assustadora!);
e, porque tinha boca para falar,
pusemo-nos a conversar.
Falámos sobre flores
e das suas aulas de poesia,
e dos problemas que teria
se tivesse miopia.
É óptimo namorar
alguém que tanto nos olha,
mas se desata a chorar
apanhamos uma molha.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

regalos XXV

VIVO SEMPRE no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje - tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara -, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.


Livro do Desassossego, Fernando Pessoa

terça-feira, 6 de maio de 2008

regalos XXIV


CXXVI. o homem enfermo


O ruído das asas do dicionário ouvia-se no desassossego da casa.

(...)
"Eu digo, em borboleta:

__Eu sou uma borboleta. Mas queria ter um sabor breve dos sentimentos humanos. É, de toda a evidência, uma cabeça humana que me está a pensar, o que não impede que o que aqui fica escrito seja o sentido da minha alma de borboleta que defronta a criatura humana que me está a ver__essa, que nunca quereria ser caçadora de borboletas,

mas cantora de leitura,
como já é cantora de escrever.
Se os cantores de leitura me admitirem no interior da sua voz, como a voz com que lêem lhes dirá que admitam, eu vacilarei entre ser e não ser da mesma espécie. Preciso de estudar, perto e longinquamente, sobre mim mesma__e a sua perda. A minha vida é arriscada e breve."


O fogo do luar libidinal é isto.


Amigo e Amiga - Curso de Silêncio 2004, Maria Gabriela Llansol

quinta-feira, 24 de abril de 2008

afagos XXIV

Hoje...tinha este mimo à minha espera na caixa do correio...

"...Por isso se desenvolva à maneira impressionista, sem o rigor do traço neo-clássico, mas com o deslumbramento da luz que vem de fora, que estimula os sentidos e que permite olhar a "Educação Artística" e a "Educação para a Cidadania", nas nossas escolas, com a "Impressão" de um novo "Sol Nascente"
Álvaro Laborinho Lúcio

quarta-feira, 9 de abril de 2008

NÃO ESQUECER XXX

A teoria

O senhor Henri disse: o telefone foi inventado para as pessoas poderem falar afastadas umas das outras.
...o telefone foi inventado para afastar umas pessoas das outras.
...é exactamente como o avião.
...o avião foi inventado para as pessoas viverem afastadas umas das outras.
...se não existissem aviões nem telefones as pessoas viviam todas juntas.
..isto é uma teoria, mas pensem bem na teoria
...o que é preciso é pensar no momento em que ninguém espera.
...é assim que os surpreendemos.

O Senhor Henri, Gonçalo M. Tavares

domingo, 30 de março de 2008

afagos XXIII


XII. onde se enterra o mar

Tenho de ir comprar remédios à farmácia que hoje, por ser domingo, fica longe. Irei, e tentarei usufruir o percurso com uma língua que, enquanto ando__fala.

Escrever na rua, sem consignar por escrito, atenua a dor que sinto e proporciona, nestas circunstâncias, um simulacro de prazer. Um outro corpo (estranho), incorporou-se num homem vivo que não lhe pertencia, e ainda não quero saber se o levará. Ou não.
Às vezes, ao contrário do que a maioria pensa, falo indirectamente do que seria menos inteligível se falasse directamente. Neste sentido, minha lucidez é explícita,
mas enquanto caminho penso na pedra, no corpo atingido, e na trajectória. terá sido perfurado o invisível? Como poderei acreditar que sei.
Chego à farmácia. Ela é palpável, o frasco de comprimidos é palpável, mas eu não. Estou a desvanecer-me num efeito misturado de língua e dor que me poderia transportar o remédio e chegar a casa sem ser vista por alguém.


XCII. beirais

_______se estiveres ausente (automóvel, comboio, avião, mudança de estação ou de cidade), compra um papel simples que te comunique e envia-mo pelos meios mais eficazes ao teu alcance, e que te revelem como comprimido a desfazer-se debaixo da língua.

AMIGO E AMIGA - Curso de Silêncio de 2004, Maria Gabriela Llansol

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

afagos XIX


Era uma vez um sonho a arder dentro do sono, era uma vez um sono impresso dentro da insónia, era uma vez um querer de mãos lavadas, era uma vez uma luz ateada na humildade, era uma vez o voo, limpo, do acreditar.
Emanuel Jorge Botelho

Urbano


Estávamos na era da composição letra a letra e foi em resposta ao espanto do meu olhar que meu pai me disse ao ouvido: "- cada uma destas letrinhas é um esconderijo de palavras." A frase ficou registada no rosto do meu para sempre e, ainda hoje, é ela que me dá a mão sempre que entro numa tipografia.

Emanuel Jorge Botelho

domingo, 20 de janeiro de 2008

afagos XVII



Neste momento, o meu poeta sem drama, que é um simples poeta múltiplo, trazido pela grande emoção da noite -a metanoite -, chegou ao primeiro degrau. Já tinha recebido a minha carta que, com uma árvore, mostrava o lugar em que estávamos. "É aqui o silêncio de que precisamos para educar o sol." Hesitou, debruçou-se por dentro do seu íntimo, e abriu uma luz pequenina, ínfima, ao lado da minha. Duas luzes ínfimas são mais do que nenhuma: "Talvez o sol a veja, na sua claridade de espírito."


Os Cantores de Leitura, Maria Gabriela Llansol